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O corpo e o mundo virtual





Havia um tempo em que a internet era nova, as coisas eram gratuitas e entrevíamos a possibilidade de ali encontrar tudo.

A conexão era de fato lenta. Mas o tempo se alastrava pela madrugada.

A internet ainda não continha de fato tudo. Muita coisa estava para ser digitalizada ou ali reproduzida. Era tempo das web-pages pessoais, não dos blogs e nem das redes sociais.

A relação com o virtual parecia, de certo modo, invertida, em relação o que ocorre hoje. O virtual se apresentava como uma espécie de novo saguão da realidade, mas com possibilidades próprias, capazes inclusives de "contaminar" o mundo real. Era como se fôssemos capazes de capacitar a esfera real, carnal, com novas possibilidades e caminhos. Por exemplo, encontrar o texto impossível ou acessar um professor inacessível em outro país; ouvir e conhecer músicas jamais imaginadas, enfim, ter acessos-mil e expandir os horizontes do próprio corpo.

Mas curiosamente, daqueles tempos para cá ocorreu um pouco o contrário. Não é mais tanto o corpo que usa o computador para possibilidades-mil, mas é o computador - cada vez mais reduzido - que parece utilizar o corpo - cada vez mais encolhido.

Transformamos a nós mesmos em frutos de likes e follows. Presidentes são eleitos e pessoas demitidas pelo mundo virtual.

Até no plano acadêmico já ouvi um professor muito requisitado dizer: você precisa fazer publicidade de si mesmo, expandir suas redes, causar certa impressão.

Mas 20 anos atrás, quando alguém queria ler um bom texto, não procurava na internet por pesquisadores que expandem suas redes, mas sim por pesquisadores que publicam bons textos (que o Google Acadêmico me desminta, se eu estiver errado).

Eis a inversão: buscávamos conteúdos para aprimorar os horizontes do corpo; hoje o corpo é que parece horizonte para questões não mais de conteúdo, mas de visibilidade, de disponibilidade, de "estar ali" e "fazer de acordo", de bancar que se tem algum conteúdo, quando o conteúdo já não vale mais tanto assim.

Então, de algum modo, parece hoje necessário não mais se conectar à rede para ser alguém, mas se desconectar dela. Como se precisássemos reconquistar o corpo, a realidade, a vida.

Pois logo ali há uma nova notificação para nos transportar em direção a outros compromissos, deslocar o corpo do aqui e agora, mergulhar nessa antessala da qual parece que nunca mais conseguimos sair.

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Um museu não queima à toa


No dia 2 de setembro, data em que Maria Leopoldina assinou a independência do Brasil, o Museu Nacional - local da assinatura - ardeu em chamas. Nada mais simbólico.

Pouco sobrou. Conforme comentou Eduardo Viveiros de Castro, um dos maiores antropólogos da atualidade, o que ardeu foi o "ground zero" do pensamento brasileiro. O ponto inicial do que poderia nos dar alguma identidade nacional, e não apenas a face de um país que não sabe para onde vai.

Nas redes sociais, vejo as pessoas se emocionarem. Mas logo continuam as correntes, os memes, inclusive em prol de candidatos sem qualquer proposta para a cultura. Ou mesmo em apoio a um candidato fascista.

É o mesmo candidato fascista que disse várias vezes que vai "fuzilar" o pessoal da cultura e anexar o Ministério da Cultura como modesta secretaria dentro do Ministério da Educação. Quem seria o encarregado? Alexandre Frota (quando a coisa aperta, vem alguém para dizer: "foi 'brincadeira'"). Mas o engraçado é que as pessoas são capazes de chorar pelo Museu Nacional e não ligar essa informação ao fato que o próprio candidato de seu voto rebaixará o ministério da Cultura.

A entrevista com Eduardo Viveiros de Castro, antropólogo do MN, emociona e revolta. É uma triste e pessimista análise sobre o que o Brasil está se tornando.

O brasileiro é ruim de ouvido, não sabe ouvir críticas. Crítica interna é coisa de chato e caxias. Quanto à crítica externa, ela só vale se for em sinal de reconhecimento. Se for negativa, os auto-enganos e justificações são bastante automáticos.

Então as declarações do arqueólogo egípcio Zahi Hawass passarão por nós como se não existissem (isso para quem as ler). Ele disse que, se não somos capazes de cuidar das raridades egípcias que perduraram outros 3500 anos, deveríamos então devolvê-las, ao invés de deixá-las arder. Afinal, se o descuidado é um patrimônio brasileiro, isso não quer dizer que outros países gostem do mesmo.

Um pouco desorientado, copio o link da entrevista com Viveiros de Castro e faço circular nas redes sociais. Mas logo alguém me interrompe sobre essas coisas de "ficar divulgando "links do PT". Diz ele: isso não passa de propaganda ideológica, coisa de esquerda, de intelectuais, de "gente da cultura" etc.. "Querem nos enganar, agora sobre o Museu".

Mas não havia ali nada referente ao PT. "PT" se referia ao endereço do site que entrevistou Viveiros de Castro. No caso, era o jornal "Publico", de Portugal, cujo endereço é publico.pt .

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Como (não) criar seu filho


Muito preocupada, uma mãe pergunta numa rede social: o que dar para meu filho como alternativa aos produtos eletrônicos? Confesso que minhas opções acabaram e começo a ver a criança entediada, impaciente.

Em resposta, uma rede inteira de solidariedade se arma: ela poderia dar massinha, pintura, brinquedos, brincadeiras novas, combinar para sair com as amigas e seus filhos, "por que eu, com meu filho, faço..."

Os comentários vão proliferando, com inúmeras receitas mirabolantes. Mas dentre todas, algo chama a atenção: nenhuma expressão semelhante a "auto" e "por ele mesmo". Fica a mensagem do perigo a evitar: "tédio", "impaciência", "ansiedade".

Os comentários vão se acumulando como imensos blocos a preencher um buraco, um vazio. A mãe precisa saber, pois a criança não pode ficar sem ter o que fazer.

Aí recordo de minha infância. Quanto tempo largado ao tempo. Folhas viravam dinheiro, papel virava mapa, galho de árvore virava espada... Claro, os pais e parentes sempre foram importantes, mas salta aos olhos o tempo, tão grande, no qual eu, e tantos outros, ficamos por nós mesmos. Inclusive trocávamos as brincadeiras. Ah sim: os espaços também eram diferentes.

Parece que hoje não pode haver espaço em branco, lacuna, vazio. Mas ora, é nesses espaços que alguém desenvolve autocontrole, iniciativa e criatividade. O que vou fazer com esse tempo, diante desse vazio? Parece que as pessoas não podem mais se deparar com essa pergunta. Há sempre um gadget, um programa, um software, ou uma alternativa descolada que alguém tem que dar.

E assim criamos crianças cheias, sem qualquer espaço para o insuportável vazio. Mas surpreende, pois a vida também tem lacunas, inclusive para respirar, ponderar e criar. O que seria do salto sem o recuo? Mas não há tempo para isso.

E a vida, como fica quando alguém nunca aprendeu a se deparar com a própria finitude, com o próprio vazio?

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Mamãe, não falei?

Incrível o nível de podridão do MBL. Eles realmente querem se afundar nessa da proibição do Santander, fazendo tudo parecer um "boicote".

A cereja do bolo é aquele playboy do "mamãefalei". Ele vai no meio da manifestação dita "de esquerda", pois se é contra o MBL, "só pode ser de esquerda", certo?

Ele chega com uma equipe, rodeado por outras câmeras, com o propósito claro de fazer provocações até ser agredido e filmado. É o típico palmeirense que quer rasgar uma bandeira do Corinthians no meio da arquibancada da Fiel.

As perguntas são mal formuladas, não afeitas ao debate (quem fala mais é ridicularizado) e deliberadamente feitas para constranger quem responde. É a típica postura do jornalista do plantão policial ao bandido: "você confessa que assassinou?"

"Você acha que foi boicote ou censura?"
"Censura."
"Mas se foi censura, qual lei proibiu?"

Tudo se passa como se o Santander fechasse o evento por "vontade própria", pois "respeita" seus clientes e não achou que a exibição contemplaria suas metas de "serviço". E por baixo, o MBL passa implicitamente a tese de que a exposição realmente foi sobre zoofilia, pedofilia e quetais, e logo, estava errada. A outra tese é de que a arte se reduz a propósitos de clientelismo e comércio: o cliente não gostou? Se a empresa é inteligente, que feche a exposição! Pois o MBL é, como dizem os dirigentes, o próprio povo, o Volk!

"Você é contra a Escola Sem Partido"?
"Sim"
"Você leu a lei?"

Como se as pessoas contrárias à lei fossem simplesmente ludibriadas sem conhecer qualquer teor, sendo automaticamente desqualificadas.

Além disso, as perguntas são fechadas e as respostas possíveis constam todas no script. Não há como "perder".

No fim da noite, lá estão os vídeos. Enfim, não é preciso discutir quando se tem a própria voz do Volk e o programa adequado das falas.

***

Disso tudo, não deixa de ser também surpreendente como os ditos manifestantes são sempre pegos e oferecem às vezes espetáculos grotescos. Muitos deles são, sim, dessa esquerda que se vê por aí.

Uma esquerda que apenas adota palavras de ordem e uma direita igualmente burra, com iguais palavras de ordem, mas uma câmera e alguns ensaios. Eis o estado da coisa.

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