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Política no Google


Para a História do Esquecimento: quase toda busca no Google que tem a ver com política encontra, na primeira página, ThinkTanks de direita ou ultradireita e liberais ou ultraliberais.

Isso é um fenômeno notável no Brasil, pois há 15 anos era bem diferente. Por exemplo, jornais disputavam a primeira pagina com blogs, e o viés político era muito mais plural.

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Olavo e os intelectuais



Ontem acabei vendo a entrevista do Olavo ao Pedro Bial. A conclusão é: estamos cada vez mais enredados, afundados, numa série de confusões e mal entendidos que tornaram possível uma imensa cultura dos fake news, repercutidos inclusive no "debate" brasileiro.

Olavo conseguiu platéia no entremeio de vários fatores. O primeiro deles é certo elitismo intelectual que acabou se consolidando na universidade brasileira. Olavo enxerga isso como uma espécie de complô da "esquerda gramsciana" que "dominou" o debate nas universidades. Ele confunde uma série de coisas: por ex. o fato de que muitos filósofos que hoje estão em voga ganharam sua notoriedade por serem bons, não por serem "de esquerda"; ou ainda, o fato de que há milhares de outros pensadores que são ciclicamente minorizados, esquecidos ou deixados de lado, não porque a academia é "esquerdista", mas porque esse processo de esvaziamento/retomada é inevitável, embora a autocrítica da universidade o seja também. É inevitável que certos pensadores fiquem em voga, ou mesmo que ocorram batalhas de primazia ou privilégio em departamentos no mundão afora. Mas isso não implica um "projeto esquerdista de dominação gramsciana". Tampouco os pensadores são simplesmente reprimidos por "não serem esquerdistas", e há inúmeras retomadas cujo movimento não é simplesmente controlável ou gerido por "projetos ideológicos". É falsa a declaração dele de que a "esquerda gramsciana" domina as pautas pelo controle das teses que podem ou não ser defendidas. Mas Olavo se aproveita de duas coisas: há de fato certos temas mais amplamente visados e existem de fato inúmeras disputas de primazia em departamentos. Unindo os dois, tudo se passa como se existisse uma "dominação esquerdista global", o que nem de longe é verdade.

Mas volto ao elitismo intelectual: de uma geração para cá, houve certo encastelamento da intelectualidade brasileira (também devido a uma série de fatores...), que não deu a mínima para a divulgação científica ou a incursão no debate público. O crescimento do modelo acadêmico norte-americano dos "papers" e a ideologia do "produtivismo" foram cruciais nisso: se a geração anterior se fechou no erudicionismo, a geração atual foi aprisionada no produtivismo, nos backlinks das citações. A academia dos anos 2010 se parece com o Technorati dos anos 2000 (o Technorati era um índice de backlinks utilizados em blogs: quanto mais links um blog recebia, mais ele era considerado importante, não importando sua real pertinência ou qualidade): a obrigação de backlinks e o especialismo em muito se sobrepoem ao trabalho lento e gradual, inclusive "global". Apresentando-se como filósofo generalista, Olavo se aproveita disso.

O fato é que o "público culto e não especializado" ficou órfão de maiores leituras. Um pouco disso foi por assim dizer "contido" nos anos 2000 devido ao debate suscitado pelos blogs, mas esse debate foi esvaziado quando criaram o twitter e o facebook (até o Orkut, em boa parte, era movido por comunidades virtuais). Olavo é player no debate virtual - e no filão do "público culto mas não especialista" - ao menos desde os anos 1990. De lá para cá ele nunca largou mão. Os blogs, em contraparte, surgiram e acabaram entre 2001-2012. De lá para cá, multiplicaram os sites de "direita" com viés "liberal" e "conservador" (Ilisp, von Mises etc.), enquanto os sites ditos "progressistas" praticamente sumiram (lembremos de seu auge quando Lula se encontrou certa vez com os "blogueiros progressistas"). Disso tudo, o fato é que, independente desse estereótipo "esquerda-direita", nos anos 2000 o debate era mais amplo e plural (houve campanhas do Estadão inclusive pastichando o poder de convencimento dos blogs), e degringolou num esvaziamento tanto dos blogs mais pluralistas quanto dos blogs de esquerda, enquanto cresceu vertiginosamente o filão para os think tanks dos espectros mais "direitistas".

Persistente, Olavo "correu por fora". Obstinado, acabou se fortalecendo com tudo isso e calhou de chegar a sua vez.

Inclusive, Olavo se fortaleceu pela própria omissão dos intelectuais, que o consideraram pouco importante. Um caso nítido é seu livro sobre Aristóteles, que promete uma "nova interpretação". O livro inteiro é feito a partir de um artigo que foi negado por uma revista. Diante dos estudos aristotélicos, Olavo é irrelevante e pouco citado, o que contrasta com o grande valor que ele se atribui (Christian Dunker já mostrou isso). Mas, sem maior crítica, a produção e divulgação de seu livro novamente correram por fora dos estudos aristotélicos. Inclusive, boa parte do livro comenta apenas sobre a recusa de seu texto. O que, em termos publicitários e unido ao silêncio dos intelectuais que não foram ao ponto da refutação efetiva, ajuda a dar o efeito de que Olavo luta contra a "esquerda" que negou sua interpretação "genial".

Outro fator importante de sua ascensão é óbvio: o antilulismo crescente e irrigado com programação diária (isso não precisa ser comentado).

Há, ainda, outra questão importante, que é a da dita "renovação cultural" propagada por ele. Olavo junta em suas crendices uma espécie de "missão", na qual o Brasil deveria ficar pronto para uma verdadeira renovação cultural "para daqui a 30 anos". Por isso ele põe o alvo na sociologia e na filosofia. Segundo ele, uma série de pensadores, inclusive brasileiros, teria sido esquecida, obliterada ou reprimida pelo "projeto gramsciano" dominador de universidades.

Na entrevista com Bial, Olavo é categórico: teria trazido à luz "milhares" de pensadores injustamente "esquecidos" pela "esquerda" (no fundo, "esquerda" significa quase todo pensamento discordante). Inclusive, isso serve de artifício retórico para "desmascarar" a "esquerda", e uma diversão dos alunos de Olavo é perguntar aos "especialistas" se eles conhecem algum desses pensadores ditos como tão importantes. Para os olavistas, o não conhecimento de um especialista sobre algum desses autores não testemunha o fato de que há inúmeros outros intérpretes igualmente esquecidos, ou que tais pensadores não estão em voga porque foram sobrepujados, ou ainda que há inúmeras retomadas cíclicas na universidade; para eles, o desconhecimento é uma espécie de sinal, de senha que reforça a crença na "dominação esquerdista". Assim, pensadores escolhidos por Olavo como bons ou os melhores, tais como Eric Voegelin, Mario Ferreira dos Santos, Otto Maria Carpeaux e outros seriam players importantes para tal renovação cultural, em detrimento dos autores "esquerdistas" que se estudam na universidade e teriam ocultado a importância deles.

Diante disso tudo, o fato nu e cru é que Olavo foi erigido como pensador que inspira até o governo de Bolsonaro. Para chegar ali ele foi beneficiado por vários fatores, que envolvem sua própria obstinação, o "antiesquerdismo" crescente, o antipetismo e o fechamento das comunidades virtuais (a passagem do "link" para o "follow" precisa ter uma história...). Comunidades como o Facebook e o Twitter utilizam diariamente o mesmo estilo de discurso que Olavo sempre utilizou: linguagem direta, sem rodeios; o desafio "aqui e agora" e a vitória por "lacração" (como se a retórica momentânea atestasse a prova da intelectualidade verdadeira). Enfim, lá se vão, nas principais comunidades virtuais, mais de 10 anos de hábitos de pensar, bem acolhedores de quem já pensava assim.

Ainda estamos no início do governo Bolsonaro e os retrocessos são vários. Em muitos sentidos já se fala em "guerra cultural". A geração anterior à de nossos professores era rigorosa, mas não deixava de lado a divulgação e o viés políticos. A geração de nossos professores tentou acompanhar a geração passada, emulando o rigor e a erudição, mas em boa parte perdendo o contato com o público. Resta a pergunta para a geração dos professores atuais, pois ela se coloca exatamente entre 1) o rigor e a erudição que encastelou parte importante da geração passada, 2) o produtivismo e o especialismo que constitui o momento atual, e 3) o desafio da "vulgarização" que exige o papel público do intelectual, e que Olavo tão bem soube aproveitar (reunindo aí também, ou principalmente, o antipetismo que calhou).

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Duas imagens do Brasil

Os dois vídeos abaixo foram gravados nos últimos dias. Compare.


Eis o segundo:


A história do segundo vídeo é narrada aqui. O desenrolar da situação começou hoje.

O número de temas aqui atravessado é tanto... É o do racismo, mas também o do "amigo do rei" (não há impessoalidade e o atendimento é sempre diverso a depender do sujeito) e o de que leis absolutamente simples, como a da fila do banco, não são respeitadas por aqui.

A não ser, é claro, que você seja branco e amigo do rei.

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A Lava Jato da Educação e os moinhos de vento "comunistas"


A última semana rendeu três notícias, cuja reunião pode criar longas consequências ao Brasil: a militarização de escolas municipais em Brasília, a criação de um gabinete militar coextensivo à reitoria da Universidade Federal Fluminense (depois revogada), e a sinalização de uma "lava jato da educação", pelos ministérios da Justiça, da Educação e Cultura e pela direção da Polícia Federal.

A criação da "lava jato" gerou algumas notícias em tom de cortina de fumaça. Alguns disseram que as ações da Kroton e da Estácio caíram 5% após a notícia. Outros, que o clima entre o MEC e a Associação das Mantenedoras do ensino privado (ABMES) ficou tenso. 

Apenas esqueceram de dizer que a vice-presidente da ANUP, entidade ligada à ABMES, é Elisabeth Guedes, irmã de Paulo Guedes, grande beneficiário do ensino privado no Brasil. 

Mas essa idéia de uma Lava jato da educação, unida à militarização, carrega questões muito mais sombrias, tendo visto que um dos primeiros alvos da "operação" são as universidades federais. 

Todo mundo sabe que a administração pública brasileira é uma imensa caixa-preta repleta de corrupção. Quem foi deputado durante 30 anos deve saber disso mais do que ninguém. E não ocorre diferente na educação. Uma devassa geral das contas, portanto, certamente revelará grandes irregularidades. E a bandeira de uma "lava jato" tem a credibilidade e o apoio de muita gente (embora falas de Sergio Moro, sobre Caixa-2 não ser crime como a corrupção - apesar de ter dito o contrário: que Caixa-2 é "pior do que corrupção" -, talvez comecem a abalar tal confiança).

Mas o propósito de uma lava jato em educação não deveria deixar o brasileiro esquecer de outra coisa, tão séria quanto: no plano de governo de Bolsonaro, e nas falas do atual ministro, a educação pública, especialmente a das universidades, é definida como uma espécie de "inimigo". As universidades são ali pintadas como antros de doutrinação influenciados pela obra de Paulo Freire. As entidades de educação privada, como a ABMES e a ANUP, fazem coro explícito a isso.

Como se sabe, isso é uma idéia totalmente maluca e não se sustenta, começando pelo fato de que 90% de nossa pesquisa vem das universidades públicas. Então os ataques não deram, até agora, muito certo. A idéia da doutrinação e do "paulofreireanismo" generalizados é simplesmente ridícula. Além disso, desqualificações da universidade, tais como a feita pelo ministro Velez de dizer que as universidades são "elitistas" e devem ser "para poucos", também não deram certo.

Inclusive, o ministro do MEC já foi bastante criticado por não sinalizar, até agora, qualquer questão para a educação que não fosse ideológica. É como se a existência de tais políticos apenas fosse legítima se existisse o inimigo pintado por eles. São como moinhos de vento: vai que cola dizer que são monstros. Mas assuntos de verdade, como as políticas sobre a educação, foram sequer tocados até agora.

Para cobrir tal vazio, portanto, não há nada melhor do que a criação de um inimigo. E uma Lava Jato para a educação tem sérios riscos de colar na cabeça do povo. Isso porque, conforme dito acima, é muito provável que os investigadores encontrem, sim, ilegalidades.

Muito ocorrerá como na tragédia do ex-reitor da UFSC, Cancelier. Muita gente boa será indevidamente exposta. Sob um selo de legalidade sem restrições e garantido por cobertura de jornal, a justiça brasileira poderá cometer desmedidas sob pretenso apoio popular.

Mas o que representa mais risco, nisso tudo, é a realização do plano de governo referido acima, de quem não sabe governar e está ansioso para encontrar inimigos que justifiquem sua existência. Explico: há o risco de que, encontrando aqui e ali irregularidades em alguma universidade, o governo julgue ter alguma justificativa para sua existência vazia de projetos. E mais ainda: é possível que a população acredite na lorota de que as pessoas da universidade são necessariamente inimigas, comunistas e corruptas.

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De Maduro ao Brasil


O apoio do presidente Bolsonaro à deposição de Maduro, na Venezuela, tem uma função pouco percebida, não na política venezuelana, mas na brasileira.

Há pouco o PT, encabeçado por Gleisi Hoffmann, cometeu uma ação desastrada (senão desastrosa), ao estar presente na controversa posse de Maduro, reeleito em 2018. Fazendo isso, para a percepção do brasileiro comum o PT se alinha com o que parece uma crise clara e um governo duvidoso, uma vez que as eleições na Venezuela não foram absolutamente normais e o clima político brasileiro é incrivelmente polarizado. Com a sinalização de Gleisi, o PT se identifica com diversos estereótipos brasileiros sobre a esquerda em geral e o PT em particular: seriam adeptos de ditaduras de esquerda, repressão e corrupção estatal.

E isso acarreta em consequências bastante concretas. Porque não possui plano de governo senão o da acusação de um "inimigo" que precisa existir para justificar a própria existência, Bolsonaro agora investe numa política externa ligada não apenas à reprovação de Maduro, mas à sua deposição. Para Bolsonaro, não é suficiente reprovar o regime venezuelano, mas intervir em sua legitimidade e, pior, seu futuro.

Somada à atitude do PT, é como se isso desse a Bolsonaro uma espécie de argumento: é preciso perseguir ou depor não apenas o "inimigo" externo, mas especialmente os internos. Afinal, se o PT é uma espécie de irmão siamês da política de Maduro, não se deve depor apenas Maduro, mas também tudo o que representa o PT em particular e a esquerda em geral.


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Bolsonaro: economia de ministérios = questões fora de vista

Onix Lorenzoni divulgou hoje (embora nada se possa confiar nesse governo) que os ministérios seriam reduzidos de 29 para 22.

O que me parece interessante é que esse dado não é o menos importante (FHC já havia dito certeiramente que “não interessa o que Bolsonaro diz, mas o que vai fazer. Esperemos a posse“), e sim o que ali não está contido.

Meio Ambiente e Direitos Humanos permanecem sem nomes, visto que Bolsonaro tornou esses ministérios "polêmicos" (como se não fosse simples bom senso mantê-los).

Mas há mais coisas aí sem nome. Uma delas é a quase ausente reação dos diversos setores da educação contra o nome do ministro escolhido. Houve algum burburinho, mas nada comparável ao que ocorreu quando Bolsonaro ameaçou fundir o meio ambiente com a agricultura.

A educação, pelo visto, vai bem (mesmo que bem desunida).

O mesmo ocorre com o Ministério do Trabalho. Será simplesmente desmembrado. E o setor responsável pelo trabalho escravo não tem destinação precisa.

O trabalho escravo continua vivinho no Brasil, em qualquer lugar e cenário. E o combate contra ele já sofria cortes orçamentários.

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Lá nas terras de Moçambique, Mia Couto diz:
“A pressa em mostrar que não se é pobre é, em si mesma, um atestado de pobreza. A nossa pobreza não pode ser motivo de ocultação. Quem deve sentir vergonha não é o pobre mas quem cria pobreza.
A frase explica muita coisa, não sobre Moçambique mas sobre o Brasil. O irônico é que apenas seja proferida lá, e não aqui. Por aqui, parece que as pessoas acham que ostentar a riqueza que não se tem é algo normal. Uma sociedade inteira com sucata nos pés e ouro na cabeça.

Talvez os moçambicanos ainda tenham chance.

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Bolsonaro e a doutrinação do ENEM

Bolsonaro disse ontem, a respeito do ENEM:
Esta prova do Enem – vão falar que eu estou implicando, pelo amor de Deus –, este tema da linguagem particular daquelas pessoas, o que temos a ver com isso, meu Deus do céu? Quando a gente vai ver a tradução daquelas palavras, um absurdo, um absurdo! Vai obrigar a molecada a se interessar por isso agora para o Enem do ano que vem?
, e depois arrematou:
Podem ter certeza e ficar tranquilos. Não vai ter questão desta forma ano que vem, porque nós vamos tomar conhecimento da prova antes. Não vai ter isso daí 
 Suas teses estão bem claras: segundo ele, há uma conspiração esquerdista no ENEM, com questões focadas em gênero para os jovens "se interessarem" em coisas do tipo.

Será isso mesmo? Vamos à questão do ENEM:
Conforme divulga o link, a resposta correta é a "C".

Agora vale prestar atenção e responder ao seguinte: estamos diante de uma questão sobre LGBT ou sobre língua portuguesa, envolvendo a definição de dialeto e uma pequena dose de interpretação de texto

Os bolsonaristas poderiam, nisso, responder: mas por que então escolher um dialeto gay? Não haveriam outros dialetos, igualmente minoritários?

A resposta óbvia é: se há tantos dialetos e minoritários, que diferença faz numa questão de língua portuguesa? Há tanta utilidade em escolher um quanto outro.

Pegou mal para Bolsonaro... Em primeiro lugar, porque ele simplesmente não leu a questão. Em segundo, sendo uma questão sobre dialetos, por que alguém proibiria um dialeto em detrimento dos outros?

O critério da prova não deveria ser neutro? O estudo da língua, como poderia dizer Bolsonaro, não deveria ser "neutro"? Afinal, é uma prova de português!

A respeito disso, Eduardo Bolsonaro comentou em seu twitter:
Prezados estudantes, quando vocês forem ser entrevistados para um emprego ou estiverem abrindo um empreendimento aviso: sexualidade, feminismo, linguagem travesti, machismo e etc terão pouca ou nenhuma importância. Portanto, estude também o que lhe deixará apto para a vida.
Olhem a tese: é preciso conhecimentos para se estar "apto à vida", e não essa coisa de aprender coisas de sexualidade. Em certo sentido, quem discordaria dele? Nem o criador da prova do ENEM! Ele poderia inclusive complementar que é essencial para a vida a interpretação de texto.

Tem faltado professor aí... pois, além de interpretação de texto, faltou no texto de Bolsonaro também outras coisas, como concordância, eliminação de verbos excessivos e gerundismos. 

***
De todo modo, ocorre aí algo muito grave. 

Entendemos que os Bolsonaro estão errados e a "doutrinação do ENEM" é uma mentira. Mas algo aí não passou como mentira, e é o próprio episódio. 

Hoje foi o episódio do ENEM, ontem o das "mamadeiras de pinto", anteontem o do manual de doutrinação do MEC...

Todos os episódios se comprovam como mentirosos. Mas algo permanece: a pauta. Já é um ensinamento antigo que uma mentira repetida muitas vezes torna-se verdade. Não à toa, os professores estão sofrendo tantos constrangimentos.

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Haddad, Bolsonaro, JN e retórica.

Hoje o Jornal Nacional realizou entrevista com Haddad, após a indicação de Lula e a pesquisa do Datafolha que mostrou Bolsonaro - "esfaqueado" - com 26% e Haddad com 13%, empatado em segundo com Ciro Gomes (PDT).

De algum modo, o JN empregou uma retórica ainda não vista n'outros anos na entrevista com candidatos: a do combate. Na ocasião de Bolsonaro, ele chegou a comparar a mesa de debate com um módulo de artilharia.

No que diz respeito a Haddad, ele foi "metralhado" (se utilizarmos outra palavra de Bolsonaro sobre petistas) por Bonner e Vasconcellos, ou ao menos essa foi a impressão retórica da entrevista para o cidadão em geral.

Tais aspectos mostram bem a época na qual vivemos. O formato inteiro - de "artilharia" - favoreceu Bolsonaro, candidato de retórica fraca e palavras secas, que ainda não superou as fases operatório-concretas do desenvolvimento infantil. Da entrevista dele para cá, o candidato teve inclusive reuniões com os diretores da Globo (dois dias antes da facada), o que mostra que o grupo levou sua candidatura mais a sério.

Quanto a Haddad, o tom professoral não sobreviveu aos ataques de Bonner e Vasconcellos. Independente do que Haddad tenha feito ou não como político, no nível da argumentação seu posicionamento de professor não é o formato ideal da entrevista. Pois Haddad se concentrava primeiro em contextualizar a pergunta de Bonner, para depois respondê-la. Não conseguiu falar e foi bombardeado com outras perguntas e evidências (verdadeiras ou não).

Veja bem, caro leitor: não defendi Haddad em momento algum. Mas é curioso: uma época "da lacração" exige posicionamentos "lacradores". Não à toa o "mito" está em primeiro nas pesquisas. Não precisa dizer uma só palavra ou articular argumento, num evento que ainda ousam chamar de político.

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Um museu não queima à toa


No dia 2 de setembro, data em que Maria Leopoldina assinou a independência do Brasil, o Museu Nacional - local da assinatura - ardeu em chamas. Nada mais simbólico.

Pouco sobrou. Conforme comentou Eduardo Viveiros de Castro, um dos maiores antropólogos da atualidade, o que ardeu foi o "ground zero" do pensamento brasileiro. O ponto inicial do que poderia nos dar alguma identidade nacional, e não apenas a face de um país que não sabe para onde vai.

Nas redes sociais, vejo as pessoas se emocionarem. Mas logo continuam as correntes, os memes, inclusive em prol de candidatos sem qualquer proposta para a cultura. Ou mesmo em apoio a um candidato fascista.

É o mesmo candidato fascista que disse várias vezes que vai "fuzilar" o pessoal da cultura e anexar o Ministério da Cultura como modesta secretaria dentro do Ministério da Educação. Quem seria o encarregado? Alexandre Frota (quando a coisa aperta, vem alguém para dizer: "foi 'brincadeira'"). Mas o engraçado é que as pessoas são capazes de chorar pelo Museu Nacional e não ligar essa informação ao fato que o próprio candidato de seu voto rebaixará o ministério da Cultura.

A entrevista com Eduardo Viveiros de Castro, antropólogo do MN, emociona e revolta. É uma triste e pessimista análise sobre o que o Brasil está se tornando.

O brasileiro é ruim de ouvido, não sabe ouvir críticas. Crítica interna é coisa de chato e caxias. Quanto à crítica externa, ela só vale se for em sinal de reconhecimento. Se for negativa, os auto-enganos e justificações são bastante automáticos.

Então as declarações do arqueólogo egípcio Zahi Hawass passarão por nós como se não existissem (isso para quem as ler). Ele disse que, se não somos capazes de cuidar das raridades egípcias que perduraram outros 3500 anos, deveríamos então devolvê-las, ao invés de deixá-las arder. Afinal, se o descuidado é um patrimônio brasileiro, isso não quer dizer que outros países gostem do mesmo.

Um pouco desorientado, copio o link da entrevista com Viveiros de Castro e faço circular nas redes sociais. Mas logo alguém me interrompe sobre essas coisas de "ficar divulgando "links do PT". Diz ele: isso não passa de propaganda ideológica, coisa de esquerda, de intelectuais, de "gente da cultura" etc.. "Querem nos enganar, agora sobre o Museu".

Mas não havia ali nada referente ao PT. "PT" se referia ao endereço do site que entrevistou Viveiros de Castro. No caso, era o jornal "Publico", de Portugal, cujo endereço é publico.pt .

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Noam Chomsky, as fake news e o Brasil


O quanto essa entrevista com Noam Chomsky nos cabe.

Sobre a descrença nos "fatos" e a criação de um mundo de fakenews, ele diz:
Já faz 40 anos que o neoliberalismo, liderado por Ronald Reagan e Margaret Thatcher, assaltou o mundo. E isso teve um efeito. A concentração aguda de riqueza em mãos privadas veio acompanhada de uma perda do poder da população geral. As pessoas se sentem menos representadas e levam uma vida precária, com trabalhos cada vez piores. O resultado é uma mistura de aborrecimento, medo e escapismo. Já não se confia nem nos próprios fatos. Há quem chama isso de populismo, mas na verdade é descrédito das instituições.
 Sobre como a imprensa concede pauta para atitudes não-democráticas:
Olhe a televisão e as primeiras páginas dos jornais. Não há nada mais que Trump, Trump, Trump. A mídia caiu na estratégia traçada por Trump. Todo dia ele lhes dá um estímulo ou uma mentira para se manter sob os holofotes e ser o centro da atenção. Enquanto isso, o flanco selvagem dos republicanos vai desenvolvendo sua política de extrema direita, cortando direitos dos trabalhadores e abandonando a luta contra a mudança climática, que é precisamente aquilo que pode acabar com todos nós.
O texto acima é particularmente interessante, devido a um fenômeno talvez pouco estudado, mas que a linguagem popular chama de "dar bandeira a maluco". Por controle de estímulos, como dizem os psicólogos behavioristas (isto é, pela criação sucessiva de contextos nos quais determinados eventos são apresentados e ocasionam determinados jogos - contingências - de comportamento), uma pauta anti-democrática ganha primeiro plano no seio da democracia. Ou, em outras palavras, um candidato é capaz de ganhar visibilidade não pelo que diz ou tem a contribuir, mas pelo fato de tornar-se frequentemente visível por outros critérios. Um pouco como na velha frase atribuída a Goebbels.

Isso ocorre no já clássico caso da oposição Lula x Bolsonaro: quando a esquerda, por vício de alarmismo e vitimismo, colocou os dois lado a lado, isso acabou capitalizando a figura de Bolsonaro que, de deputado irrelevante do baixo clero, tornou-se uma espécie de "opositor" das políticas do PT.

O resultado tornou-se bastante conhecido ao brasileiro: basta dizer "Lula" que alguém devolve sem pensar "Bolsonaro!"; e basta acusar Bolsonaro e você é diretamente visto como "lulista", mesmo que isso esteja longe da verdade.
P. Houve um deslizamento para a direita do espectro político?
R. Na elite do espectro político sim, ocorreu esse deslizamento, mas não na população em geral. Desde os anos oitenta se vive uma ruptura entre o que as pessoas desejam e as políticas públicas. É fácil ver isso no caso dos impostos. As pesquisas mostram que a maioria quer impostos mais altos para os ricos. Mas isso nunca se leva a cabo. Frente a isso se promoveu a ideia de que reduzir impostos traz vantagens para todos e que o Estado é o inimigo. Mas quem se beneficia da reduzir [verbas para] estradas,hospitais, água limpa e ar respirável? 

P. Então o neoliberalismo triunfou? 
R. O neoliberalismo existe, mas só para os pobres. O mercado livre é para eles, não para nós. Essa é a história do capitalismo. As grandes corporações empreenderam a luta de classes, são autênticos marxistas, mas com os valores invertidos. Os princípios do livre mercado são ótimos para ser aplicados aos pobres, mas os muito ricos são protegidos. As grandes indústrias de energia recebem subvenções de centenas de milhões de dólares, a economia de alta tecnologia se beneficia das pesquisas públicas de décadas anteriores, as entidades financeiras obtêm ajuda maciça depois de afundar… Todas elas vivem com um seguro: são consideradas muito grandes para cair e são resgatadas se têm problemas. No fim das contas, os impostos servem para subvencionar essas entidades e com elas, os ricos e poderosos. Mas além disso se diz à população que o Estado é o problema e se reduz seu campo de ação. E o que ocorre? Seu espaço é ocupado pelo poder privado, e a tirania das grandes corporações fica cada vez maior.
Lúcido, o velho Chomsky.

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Entrevista com Agnes Heller

Fui marxista durante uma época, mas desde então não quis nenhum ismo, nem mesmo o de anti-marxismo. É algo que aprendi com Michel Foucault, que nenhum filósofo pode aderir a um ismo. Estávamos juntos em Nova York e um jovem se aproximou de Foucault e perguntou: “Professor, você é estruturalista ou pós-estruturalista?”. E ele respondeu: “Sou Michel Foucault”. Nem todos os filósofos contemporâneos pertencem a escolas, tendências...

Bela entrevista com Agnes Heller, no El Pais. 

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As falas do fascista

Dentre os candidatos às eleições 2018, todos sabem que há um candidato fascista. Mais de uma vez, o brasileiro teve motivos para não votar nele. Por fascismo, defino: o culto a regimes de exceção (e contrários ao exercício da liberdade individual), a defesa de tortura patrocinada pelo Estado e de grupos de extermínio, declarações ofensivas e criminosas contra mulheres, negros e homossexuais, a defesa da violência como método de "segurança" e a acusação de "inimigos" que precisam ser exterminados, deletados, eliminados ou tirados do caminho (mas Umberto Eco tem uma definição muito mais contundente).

Não mencionei o apoio a milícias (como as cariocas), a aceitação de propina requentada pelo partido ou o cultivo de funcionário fantasma.

Há quem diga "ele não fala ou faz as coisas a sério". Mas se raio não cai no mesmo lugar, não é meio maluco vê-lo cometendo tantas "brincadeiras"? Sinceramente. 

Ou ainda, vou começar a recolher aqui algumas de suas falas, apenas as dos últimos dias.

2 de setembro: "Bolsonaro fala em 'fuzilar a petralhada' no Acre". Mas não é só: ele fala em expulsar a "petralhada" para a Venezuela, já que o Acre ficaria  "perto". À esquerda, dirão que a fala foi literal; à direita, dirão que foi figurada. A pergunta que fica é: e numa democracia, como se porta um candidato frente a seus adversários? Mas o mais curioso é achar que o Acre fica próximo à Venezuela (se 1000 Km representar proximdiade...)

24 de agosto: "Bolsonaro quer campo de refugiados em Roraima". Não tenho palavras para comentar inúmeras passagens.
Por que Roraima, por exemplo, está fadado ao fracasso? Por causa da política ambiental indigenista. Como atender à demanda para que esses bens sejam explorados agregando algum valor para atender às bancadas desses Estados? E assim a gente vai ponteando o Brasil todo.
Esse pessoal que defende direitos humanos de marginais, em grande parte, vive de dinheiro de ONGs. Não terá um centavo para ONG que defenda o direito de marginais. O marginal para mim é um bandido que só tem um direito para mim: o de não ter direito e ponto final.
O que eu falei foi que as bancadas de segurança, que é conhecida pela bancada da bala, vai aumentar e muito. Que a violência é o que tá cabeça de todo mundo como o primeiro assunto a se buscar uma solução para ele.
Ele (Trump) quer cérebros lá dentro. Os Estados Unidos, pelo que eu entendo, são uma fábrica de cérebros. E não pode, no meu entender – no lugar dele eu faria a mesma coisa – aceitar à vontade tudo quanto é tipo de gente. Porque junto com gente boa entra quem não presta. Olha a nossa querida Roraima, Boa Vista e Pacaraima. Eu estive lá. Hoje em dia calculam que Boa Vista tem em torno de 40 mil venezuelanos. E olha só, a ditadura, quando começa a tomar forma, a elite é a primeira a sair. Essa foi pra Miami. A parte mais intermediária, grande parte foi para o Chile. E agora os mais pobres estão vindo para o Brasil. Nós já temos problemas demais aqui. Se vamos incorporar aquele exército que recebe Bolsa Família, quem vai pagar isso aí? Vamos aumentar impostos?
Primeiro, via Parlamento, revogar essa lei de imigração aí. Outra, fazer campo de refugiados. 
23 de agosto: "Bolsonaro encoraja pais a ensinarem as crianças a atirar"
O candidato à Presidência pelo PSL, deputado federal Jair Bolsonaro (RJ), disse que ensinou os próprios filhos a atirar com arma de fogo, com munição, quando eles tinham cinco anos e afirmou que "encoraja, sim" esse tipo de conduta para evitar que haja uma geração de "covardes" na sociedade. "Não podemos mais ter uma geração de covardes, de ovelhas, morrendo nas mãos de bandidos sem reagir", afirmou em entrevista nesta quinta-feira (23), depois de participar de atos de campanha em Araçatuba e Glicério, no interior paulista. Ele criticou o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e disse que esse conjunto de leis deve ser "rasgado e jogado na latrina".

"Defendo que um pai ensine o que é uma arma de fogo para seu filho, para que serve. Nas comunidades tem moleque usando fuzil maior do que ele. Não podemos criar uma geração de covardes, de submissos, partir para esse tipo de política, de sempre se entregue, não reaja"
No mesmo evento, ele declarou: o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) "deveria ser jogado na latrina", pois "é um estímulo à vagabundagem e à malandragem infantil".

22 de agosto: Vídeo que lista condenações de Jair Bolsonaro não sofreu manipulação

21 de agosto: Bolsonaro vai à igreja como candidato e pode ser enquadrado por propaganda irregular.

20 de agosto: Filho de Bolsonaro aumenta patrimônio em 432% em 4 anos.

19 de agosto
Candidato à presidência pelo PSL, Jair Bolsonaro explicou o que quis dizer a Marina Silva no debate de sexta-feira na RedeTV! sobre a bíblia pregar o armamento.
A declaração foi colhida pelo jornal O Globo.  Paulo fala: “venda suas capas e compre espadas”. Está na Bíblia”, declarou o presidenciável durante evento na Academia dos Agulhas Negras, em Resende (RJ).
Na verdade, um trecho semelhante ao citado por Bolsonaro está no livro de Lucas e não de Paulo.  Alertado pelo Globo sobre o erro, Bolsonaro minimizou: “Eu não lembro qual livro. Jesus Cristo não foi totalmente passivo. Expulsou os vendilhões do templo. Se tivesse arma de fogo, seria usada”, insistiu o deputado federal. (ele levou uma chapuletada de Marina Silva e de vários teólogos, inclusive com previsão de Julian Arias)

18 de agosto:
“Se eu for presidente, eu saio da ONU. Não serve para nada essa instituição”, disse Bolsonaro neste sábado (18), numa cerimônia de cadetes da Aman (Academia Militar das Agulhas Negras), em Resende (RJ).
“Saio fora, não serve para nada, é um local de reunião de comunistas e de gente que não tem o menor compromisso com a América do Sul”, disse após ser questionado pela Folha sobre adecisão favorável de um comitê da ONU pela candidatura do ex-presidente Lula. (18 de agosto - no dia 20 de agosto disse que foi "ato falho" e nunca havia dito isso...)



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Estado de compadrio

Preso à noite e deputado de dia, deputado vota a favor de Temer "conforme orientação de partido":

Preso em regime semiaberto, o deputado Celso Jacob (PMDB-RJ) foi o voto número 171 a favor do presidente Michel Temer. Jacob foi preso pela Polícia Federal, em cumprimento à determinação expedida pelo Supremo Tribunal Federal (STF) no dia 23 de maio

Vossa Excelência vai mudando a jurisprudência de acordo com o réu. Isso não é estado de direito. É estado de compadrio. Juiz não pode ter correligionário
, disse Roberto Barroso para Gilmar Mendes

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Mamãe, não falei?

Incrível o nível de podridão do MBL. Eles realmente querem se afundar nessa da proibição do Santander, fazendo tudo parecer um "boicote".

A cereja do bolo é aquele playboy do "mamãefalei". Ele vai no meio da manifestação dita "de esquerda", pois se é contra o MBL, "só pode ser de esquerda", certo?

Ele chega com uma equipe, rodeado por outras câmeras, com o propósito claro de fazer provocações até ser agredido e filmado. É o típico palmeirense que quer rasgar uma bandeira do Corinthians no meio da arquibancada da Fiel.

As perguntas são mal formuladas, não afeitas ao debate (quem fala mais é ridicularizado) e deliberadamente feitas para constranger quem responde. É a típica postura do jornalista do plantão policial ao bandido: "você confessa que assassinou?"

"Você acha que foi boicote ou censura?"
"Censura."
"Mas se foi censura, qual lei proibiu?"

Tudo se passa como se o Santander fechasse o evento por "vontade própria", pois "respeita" seus clientes e não achou que a exibição contemplaria suas metas de "serviço". E por baixo, o MBL passa implicitamente a tese de que a exposição realmente foi sobre zoofilia, pedofilia e quetais, e logo, estava errada. A outra tese é de que a arte se reduz a propósitos de clientelismo e comércio: o cliente não gostou? Se a empresa é inteligente, que feche a exposição! Pois o MBL é, como dizem os dirigentes, o próprio povo, o Volk!

"Você é contra a Escola Sem Partido"?
"Sim"
"Você leu a lei?"

Como se as pessoas contrárias à lei fossem simplesmente ludibriadas sem conhecer qualquer teor, sendo automaticamente desqualificadas.

Além disso, as perguntas são fechadas e as respostas possíveis constam todas no script. Não há como "perder".

No fim da noite, lá estão os vídeos. Enfim, não é preciso discutir quando se tem a própria voz do Volk e o programa adequado das falas.

***

Disso tudo, não deixa de ser também surpreendente como os ditos manifestantes são sempre pegos e oferecem às vezes espetáculos grotescos. Muitos deles são, sim, dessa esquerda que se vê por aí.

Uma esquerda que apenas adota palavras de ordem e uma direita igualmente burra, com iguais palavras de ordem, mas uma câmera e alguns ensaios. Eis o estado da coisa.

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Lula é preso e decide delatar

Não seria inútil fazer o experimento mental: Lula é preso e decide delatar. O que aconteceria?

A justiça tem sido feita para levar a Lava Jato até onde for, ou para pegar Lula? Qual seria o tom da imprensa após uma eventual prisão?

Por exemplo, será que a imprensa cometeria um artigo como esse, da Folha, no qual Lula é novamente visto como fazendo um "embate" contra Moro, e a resportagem inteira é feita para canalizar o julgamento do leitor contra Lula, ao invés de fornecer elementos para que o leitor, ele mesmo, julgue?

Ou senão, vejamos: segundo a Folha, não se trata de um julgamento, mas de um "embate"; Lula está mais "nervoso", "acuado e agressivo"; "perto de explodir verbalmente" é "mais réu do que candidato". Além disso, se o feminismo não fosse "pró-Lula" (!), teria acusado ele de responder coloquialmente por "querida" a uma magistrada.

O mais incrível da reportagem é o jogo retórico: a reportagem inteira foca no "teor da acusação", de que Lula teria fugido ao assunto e Moro o manteria "nas cordas", isto é, respondendo apenas sobre o teor do processo. Mas sobre o processo e suas circunstâncias, a Folha nada comenta (nem sobre os comentários em jogo!). Igualmente, a Folha em nada comenta sobre as próprias fragilidades recentes da Lava Jato e do judiciário brasileiro.

Não é uma pauta para discutir publicamente acusações e acusados. É uma pauta passional para analisar o quanto um indivíduo, cultivado como "último chefão do jogo", está ou não balançando no "embate" contra a justiça (mas a imagem da justiça não era para ser imparcial??)

Por isso vale o exercício mental: e se Lula é preso e eventualmente decide delatar? Não estará a imprensa esgotada, e com ela também a Lava Jato? Todo o circo terá chegado ao ápice.

Teremos um povo orientado à "justiça" e com a sanha de que ela seja feita e apurada? Continuará Moro sendo um cruzado em nome da "justiça", ou pendurará as chuteiras ali?

A resposta a isso define se o Brasil é um lugar que vale a pena levar a sério ou onde vale a pena viver.

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Entre ejaculações e indícios

"O crime de estupro tem como núcleo típico constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, a ter conjunção carnal ou a praticar ou permitir que com ele se pratique outro ato libidinoso. Na espécie, entendo que não houve o constrangimento, tampouco violência ou grave ameaça, pois a vítima estava sentada em um banco de ônibus quando foi surpreendida pela ejaculação do indiciado"
, diz o juiz que não entendeu como crime grave o fato de um indivíduo ejacular numa mulher num ônibus, em SP. Antecedentes? O sujeito já teve 17 passagens na polícia por crimes sexuais.

Em meio a isso tudo, vale lembrar: uma das notícias mais repetidas dos últimos anos é a do "estupro" que Julian Assange teria cometido em duas suecas. O sexo havia sido consentido, sem qualquer "constrangimento". Mas com uma delas, a camisinha havia estourado. Com a outra, houve duas relações, uma com e outra sem camisinha.

Isso teria validado a acusação de estupro. Depois disso, aquelas inúmeras ameaças de condenação e deportação aos EUA, onde Assange poderia ser condenado à morte.

A diferença em relação ao caso brasileiro é gritante...

Ou mudemos o assunto, para a relação entre "provas" x "convicções" na própria justiça brasileira. É famosa a acusação de Deltan Dallagnol a Lula. Diversos indícios para convicções valeriam como prova? Isso motivou, em muito, a postura do juiz Sérgio Moro.

Moro ganhou de presente um filme, chamado "A lei é para todos". Lição de moralidade na justiça, certo?

A considerar isso tudo, a justiça tornou réus os 18 presos naquela macarrônica infiltração de um agente do exército, o tal "Balta Nunes", num simples grupo de pessoas que iriam a uma manifestação contra o impeachment. Para quem não lembra: o exército brasileiro infiltrou um capitão para... monitorar chats de internet e detectar possíveis terroristas! O cara encontrou apenas alguns indivíduos comuns, alguns revoltados, outros até exaltados. Talvez até tenha incitado algum dado mais radical para gerar o "flagra".

O que fizeram os incautos arrebanhados pelo corajoso Balta? Nada! Mas foram presos e agora são réus. O que diz a justiça é que há muitos indícios. Indícios de que fizeram algo, certo? Não! Mas sim de que "poderiam" ter feito.

Mas talvez não houve tantos indícios quando prenderam aquele filho da desembargadora, carregando mais de 100 Kg de drogas e munição de fuzil. Ela foi pessoalmente para soltá-lo.

A imagem do Brasil atual é um homem ejaculando no cartaz do filme "A lei é para todos". A definir qual será então, aí, a aplicação da lei.

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Cuba, Che e as Reformas (entrevista com Aleida Guevara)

A Folha de São Paulo entrevistou Aleida Guevara, filha d'El Che, em visita ao Brasil. Alida vem a um congresso sobre Agroecologia. Fala sobre as últimas reformas cubanas e suas consequências. 

Folha - Como vê o Brasil hoje?

Aleida Guevara - Para quem vem de fora é muito fácil analisar a situação. Para quem vive a realidade cotidiana é mais difícil. Por isso não é bom perguntar a quem vem de fora sobre a realidade do teu país, porque não tem base sólida para falar. Como trabalho com o MST há tanto tempo, uma das coisas que sempre tenho visto é a necessidade de repartir a terra, fazer uma reforma agrária profunda. Para que este país possa solucionar de verdade seus problemas de sua gente mais simples, do campo. Isso eu posso dizer. Mas, como o Brasil vai, só os brasileiros sabem. Vim participar da conferência de agroecologia em Londrina. 

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