Política no Google


Para a História do Esquecimento: quase toda busca no Google que tem a ver com política encontra, na primeira página, ThinkTanks de direita ou ultradireita e liberais ou ultraliberais.

Isso é um fenômeno notável no Brasil, pois há 15 anos era bem diferente. Por exemplo, jornais disputavam a primeira pagina com blogs, e o viés político era muito mais plural.

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Os estudantes pelados e o complô de Gramsci

Estudante nua protesta nas dependências de uma Universidade

Hoje o dia foi pesado. Encontrei um amigo - militar aposentado - que utilizou de todos os subterfúgios para mostrar para mim que a Universidade pública está com os dias contados.

Ele listou todos os argumentos do Tiozão do WhatsApp: há um "complô gramsciano" de esquerda desde as mais priscas eras, o complô gramsciano quer destruir a família e a propriedade, na universidade as pessoas andam peladas e apenas há doutrinação de esquerda, a arte é "degenerada" (sic!), as Ciências Humanas não servem para nada, na ditadura militar não existia corrupção, os militares são honestos e ponto final.

Ele também tentou me mostrar que "países evoluídos", como a Suécia, são capitalistas e o capitalismo não é tão malvado assim.

O que fiz? Tentei argumentar, apresentando fatos.

Eu disse que menos de 5% das pesquisas brasileiras em Filosofia são sobre Marx e que nenhuma é sobre Gramsci. Disse, inclusive, que um país forte investe em pesquisa pura, e deveria ter bom conhecimento de todos os assuntos, ainda mais se seus habitantes algum dia elegem algum pensador como persona non grata.

Tentei explicar que não existe "a esquerda", e sim diversas esquerdas que não se comunicam, e principalmente brigam entre si (as eleições de 2018 que o digam). A esquerda das "questões de gênero" não é bem vista por boa fatia da esquerda mais dogmática e vice-versa. E se existisse uma esquerda unificada, não se veria no Brasil tantas derrotas.

Eu disse que o PT não foi propriamente um governo de esquerda marxista, mas uma social democracia, um capitalismo de bem-estar, semelhante à Noruega e à Suécia (e para não me deixar mentir, até os comunistas chamavam Lula de liberal, o que é algo diferente de um social democrata). Disse que enquanto privatizamos a Petrobras por aqui, estatais como a Statoil (norueguesa) estão se aproveitando da situação para beneficiar os felizes noruegueses, enquanto coxinhas e petralhas cagam pela boca.

Tentei dizer que a ditadura militar talvez não tivesse tantos escândalos de corrupção porque as pessoas não os viam, mas que as informações sobre corrupção são abundantes (1, 2, 3, 4, 5, 6). Mostrei, com as falas do próprio amigo, que é estranho termos visto pessoas como Maluf e Sarney terem saído dali. 

Tendei dizer que a universidade não tem qualquer caráter de doutrinação, mas sim de pluralismo e discussão. Disse que, se os EUA por acaso instituissem uma certidão de nascimento com gênero indefinido, essa é uma questão jurídica e moral, e não acadêmica. Que, aliás, as Universidades são locais de excelência para discutir questões jurídicas e éticas. E também que as universidades são locais de pesquisa, e não escolas técnicas, e por isso qualquer assunto ali cabe, desde que bem fundamentado.

Ilustrei, inclusive, que a arte é questão inerente à Universidade, pois Universidade é local de Pensamento. Que houve uma gigantesca proliferação de Fake News a respeito de haver ali "gente pelada". Que ocorrem, sim, episódios nos quais determinados usos da arte empregam "gente pelada", por exemplo para falar de questões sobre o Holocausto nazista ou para protestar contra o número absurdo de estupros de uma cidade (e o mais surreal é ver as pessoas condenando coisas que até chegaram a virar documentário). Mas, sobretudo, há artes para além da arte clássica, empregando linguagens que não são apenas pincel e tinta.

Até cheguei a dizer que há, sim, brigas setoriais na Universidade, disputinhas de poder e lobbies bem à brasileira. Mas nada adiantou. Fato após fato, o que eu via era meu amigo tentando levantar a voz, cortar minha palavra, mostrar aquela história do WhatsApp que fala sobre o professor que convenceu que o comunismo é falso quando resolveu dar a mesma nota média para todos os alunos.

Quando ele via que o argumento do meme não vencia o argumento dos fatos (e que, enfim, eu nem sou comunista), ele apenas falava mais alto. E mais alto. E me cortava mais e mais.

A propósito: a foto acima não é de nenhum estudante universitário. É só a Mulher Melão.

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Armas e livros no novo Brasil


Hoje foi um dia estranho. De manhã, tentaram me convencer de que Bolsonaro só não fecha o Congresso porque não quer, mas que ele é "prudente" e tem 5 generais na mão, e que militares são ilibados e não-corruptos. 

Tentei conversar, dizer, falar, contra-argumentar, mas não havia espaço algum. Se eu tentava falar, o homem apenas falava mais alto, e mais e mais. Dizia sobre as virtudes do exército e de como ali não há corrupção. 

Há certa relação direta entre o aumento no tom de voz e o desconhecimento dos fatos, pois a Ditadura era muitas coisas, mas especialmente era muito corrupta (1, 2, 3, 4, 5, 6). Tanto quanto o aumento no tom de voz anula o outro e transforma a relação numa pequena guerra. 

Afinal, "guerra" é o que a turma do Bolsonaro quer fazer passar entre a gente. Um governo cujo plano de governo é inexistente (são 80 slides mal feitos e com erros de português, basta ir lá ver), mas cuja existência, por não existir plano, precisa então do fato de que algum inimigo exista ou caiba na carapuça.

O segundo fato estranho foi ter ouvido, de forma natural, que as universidades públicas serão fechadas ou privatizadas. Caiu assim, espontâneo, simples, direto, como fato consumado. A pessoa falava, mas parecia não estar tendo noção da gravidade do que falava. Era como quando você está desatento e acaba aceitando algo que alguém diz para você. Só que a pessoa estava desatenta e, ao mesmo tempo, falava daquilo: a universidade pública vai acabar.

O terceiro foi a notícia da liberação de armas no Brasil, ou mais precisamente o fato de que o brasileiro poderá ter em casa um fuzil

Às vezes, o sentimento de que o Brasil se perde, de que a guerra ou a desesperança se aproximam mais e mais, é insuportável.

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"Qual é sua condição?" x "A garantia sou eu"



Tá pra vir alguém que explique o Rio.

O táxi pergunta para onde você vai, e então vê se te leva; o Uber pergunta se você tem compras, para ver se te leva. E o SAMU pergunta qual é a condição social do doente, para ver se vem buscar.

Acabou de desabar um prédio em Muzema, local controlado por milícias. Um major da polícia comanda a milícia. Numa das reportagens, o dono do prédio negocia com um interessado a respeito de garantias. Diz o dono: pode acertar comigo, a garantia sou eu.

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Luiz Carlos Prestes no Jô, hoje à noite







O brasileiro está descontente. O governo favorece as grandes oligarquias. De repente aparece um político novo, diferente dos outros e com as maiores promessas de acabar com "tudo o que está aí." Quem não conhece essa história?

Escreveu Bolsonaro, no Museu do Holocausto: quem não conhece o passado está condenado a não ter futuro. Grande frase, embora - ironia das ironias! - é um esquecimento e uma variação da velha frase "quem não conhece o passado está condenado a repeti-lo", já atribuída a Che Guevara (Bolsonaro citando Che!), Santayana, Marx e Burke.

Eis, acima, uma tremenda aula de História. É Luiz Carlos Prestes, que testemunha a si próprio e sua época, na qual o "marxismo científico" ainda movia as pessoas e convicções. Ele fala sobre liberais, comunistas, Lula e Collor, o grande homem que chegou para "acabar com isso que tá aí".

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Olavo e os intelectuais



Ontem acabei vendo a entrevista do Olavo ao Pedro Bial. A conclusão é: estamos cada vez mais enredados, afundados, numa série de confusões e mal entendidos que tornaram possível uma imensa cultura dos fake news, repercutidos inclusive no "debate" brasileiro.

Olavo conseguiu platéia no entremeio de vários fatores. O primeiro deles é certo elitismo intelectual que acabou se consolidando na universidade brasileira. Olavo enxerga isso como uma espécie de complô da "esquerda gramsciana" que "dominou" o debate nas universidades. Ele confunde uma série de coisas: por ex. o fato de que muitos filósofos que hoje estão em voga ganharam sua notoriedade por serem bons, não por serem "de esquerda"; ou ainda, o fato de que há milhares de outros pensadores que são ciclicamente minorizados, esquecidos ou deixados de lado, não porque a academia é "esquerdista", mas porque esse processo de esvaziamento/retomada é inevitável, embora a autocrítica da universidade o seja também. É inevitável que certos pensadores fiquem em voga, ou mesmo que ocorram batalhas de primazia ou privilégio em departamentos no mundão afora. Mas isso não implica um "projeto esquerdista de dominação gramsciana". Tampouco os pensadores são simplesmente reprimidos por "não serem esquerdistas", e há inúmeras retomadas cujo movimento não é simplesmente controlável ou gerido por "projetos ideológicos". É falsa a declaração dele de que a "esquerda gramsciana" domina as pautas pelo controle das teses que podem ou não ser defendidas. Mas Olavo se aproveita de duas coisas: há de fato certos temas mais amplamente visados e existem de fato inúmeras disputas de primazia em departamentos. Unindo os dois, tudo se passa como se existisse uma "dominação esquerdista global", o que nem de longe é verdade.

Mas volto ao elitismo intelectual: de uma geração para cá, houve certo encastelamento da intelectualidade brasileira (também devido a uma série de fatores...), que não deu a mínima para a divulgação científica ou a incursão no debate público. O crescimento do modelo acadêmico norte-americano dos "papers" e a ideologia do "produtivismo" foram cruciais nisso: se a geração anterior se fechou no erudicionismo, a geração atual foi aprisionada no produtivismo, nos backlinks das citações. A academia dos anos 2010 se parece com o Technorati dos anos 2000 (o Technorati era um índice de backlinks utilizados em blogs: quanto mais links um blog recebia, mais ele era considerado importante, não importando sua real pertinência ou qualidade): a obrigação de backlinks e o especialismo em muito se sobrepoem ao trabalho lento e gradual, inclusive "global". Apresentando-se como filósofo generalista, Olavo se aproveita disso.

O fato é que o "público culto e não especializado" ficou órfão de maiores leituras. Um pouco disso foi por assim dizer "contido" nos anos 2000 devido ao debate suscitado pelos blogs, mas esse debate foi esvaziado quando criaram o twitter e o facebook (até o Orkut, em boa parte, era movido por comunidades virtuais). Olavo é player no debate virtual - e no filão do "público culto mas não especialista" - ao menos desde os anos 1990. De lá para cá ele nunca largou mão. Os blogs, em contraparte, surgiram e acabaram entre 2001-2012. De lá para cá, multiplicaram os sites de "direita" com viés "liberal" e "conservador" (Ilisp, von Mises etc.), enquanto os sites ditos "progressistas" praticamente sumiram (lembremos de seu auge quando Lula se encontrou certa vez com os "blogueiros progressistas"). Disso tudo, o fato é que, independente desse estereótipo "esquerda-direita", nos anos 2000 o debate era mais amplo e plural (houve campanhas do Estadão inclusive pastichando o poder de convencimento dos blogs), e degringolou num esvaziamento tanto dos blogs mais pluralistas quanto dos blogs de esquerda, enquanto cresceu vertiginosamente o filão para os think tanks dos espectros mais "direitistas".

Persistente, Olavo "correu por fora". Obstinado, acabou se fortalecendo com tudo isso e calhou de chegar a sua vez.

Inclusive, Olavo se fortaleceu pela própria omissão dos intelectuais, que o consideraram pouco importante. Um caso nítido é seu livro sobre Aristóteles, que promete uma "nova interpretação". O livro inteiro é feito a partir de um artigo que foi negado por uma revista. Diante dos estudos aristotélicos, Olavo é irrelevante e pouco citado, o que contrasta com o grande valor que ele se atribui (Christian Dunker já mostrou isso). Mas, sem maior crítica, a produção e divulgação de seu livro novamente correram por fora dos estudos aristotélicos. Inclusive, boa parte do livro comenta apenas sobre a recusa de seu texto. O que, em termos publicitários e unido ao silêncio dos intelectuais que não foram ao ponto da refutação efetiva, ajuda a dar o efeito de que Olavo luta contra a "esquerda" que negou sua interpretação "genial".

Outro fator importante de sua ascensão é óbvio: o antilulismo crescente e irrigado com programação diária (isso não precisa ser comentado).

Há, ainda, outra questão importante, que é a da dita "renovação cultural" propagada por ele. Olavo junta em suas crendices uma espécie de "missão", na qual o Brasil deveria ficar pronto para uma verdadeira renovação cultural "para daqui a 30 anos". Por isso ele põe o alvo na sociologia e na filosofia. Segundo ele, uma série de pensadores, inclusive brasileiros, teria sido esquecida, obliterada ou reprimida pelo "projeto gramsciano" dominador de universidades.

Na entrevista com Bial, Olavo é categórico: teria trazido à luz "milhares" de pensadores injustamente "esquecidos" pela "esquerda" (no fundo, "esquerda" significa quase todo pensamento discordante). Inclusive, isso serve de artifício retórico para "desmascarar" a "esquerda", e uma diversão dos alunos de Olavo é perguntar aos "especialistas" se eles conhecem algum desses pensadores ditos como tão importantes. Para os olavistas, o não conhecimento de um especialista sobre algum desses autores não testemunha o fato de que há inúmeros outros intérpretes igualmente esquecidos, ou que tais pensadores não estão em voga porque foram sobrepujados, ou ainda que há inúmeras retomadas cíclicas na universidade; para eles, o desconhecimento é uma espécie de sinal, de senha que reforça a crença na "dominação esquerdista". Assim, pensadores escolhidos por Olavo como bons ou os melhores, tais como Eric Voegelin, Mario Ferreira dos Santos, Otto Maria Carpeaux e outros seriam players importantes para tal renovação cultural, em detrimento dos autores "esquerdistas" que se estudam na universidade e teriam ocultado a importância deles.

Diante disso tudo, o fato nu e cru é que Olavo foi erigido como pensador que inspira até o governo de Bolsonaro. Para chegar ali ele foi beneficiado por vários fatores, que envolvem sua própria obstinação, o "antiesquerdismo" crescente, o antipetismo e o fechamento das comunidades virtuais (a passagem do "link" para o "follow" precisa ter uma história...). Comunidades como o Facebook e o Twitter utilizam diariamente o mesmo estilo de discurso que Olavo sempre utilizou: linguagem direta, sem rodeios; o desafio "aqui e agora" e a vitória por "lacração" (como se a retórica momentânea atestasse a prova da intelectualidade verdadeira). Enfim, lá se vão, nas principais comunidades virtuais, mais de 10 anos de hábitos de pensar, bem acolhedores de quem já pensava assim.

Ainda estamos no início do governo Bolsonaro e os retrocessos são vários. Em muitos sentidos já se fala em "guerra cultural". A geração anterior à de nossos professores era rigorosa, mas não deixava de lado a divulgação e o viés políticos. A geração de nossos professores tentou acompanhar a geração passada, emulando o rigor e a erudição, mas em boa parte perdendo o contato com o público. Resta a pergunta para a geração dos professores atuais, pois ela se coloca exatamente entre 1) o rigor e a erudição que encastelou parte importante da geração passada, 2) o produtivismo e o especialismo que constitui o momento atual, e 3) o desafio da "vulgarização" que exige o papel público do intelectual, e que Olavo tão bem soube aproveitar (reunindo aí também, ou principalmente, o antipetismo que calhou).

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Duas imagens do Brasil

Os dois vídeos abaixo foram gravados nos últimos dias. Compare.


Eis o segundo:


A história do segundo vídeo é narrada aqui. O desenrolar da situação começou hoje.

O número de temas aqui atravessado é tanto... É o do racismo, mas também o do "amigo do rei" (não há impessoalidade e o atendimento é sempre diverso a depender do sujeito) e o de que leis absolutamente simples, como a da fila do banco, não são respeitadas por aqui.

A não ser, é claro, que você seja branco e amigo do rei.

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O corpo e o mundo virtual





Havia um tempo em que a internet era nova, as coisas eram gratuitas e entrevíamos a possibilidade de ali encontrar tudo.

A conexão era de fato lenta. Mas o tempo se alastrava pela madrugada.

A internet ainda não continha de fato tudo. Muita coisa estava para ser digitalizada ou ali reproduzida. Era tempo das web-pages pessoais, não dos blogs e nem das redes sociais.

A relação com o virtual parecia, de certo modo, invertida, em relação o que ocorre hoje. O virtual se apresentava como uma espécie de novo saguão da realidade, mas com possibilidades próprias, capazes inclusives de "contaminar" o mundo real. Era como se fôssemos capazes de capacitar a esfera real, carnal, com novas possibilidades e caminhos. Por exemplo, encontrar o texto impossível ou acessar um professor inacessível em outro país; ouvir e conhecer músicas jamais imaginadas, enfim, ter acessos-mil e expandir os horizontes do próprio corpo.

Mas curiosamente, daqueles tempos para cá ocorreu um pouco o contrário. Não é mais tanto o corpo que usa o computador para possibilidades-mil, mas é o computador - cada vez mais reduzido - que parece utilizar o corpo - cada vez mais encolhido.

Transformamos a nós mesmos em frutos de likes e follows. Presidentes são eleitos e pessoas demitidas pelo mundo virtual.

Até no plano acadêmico já ouvi um professor muito requisitado dizer: você precisa fazer publicidade de si mesmo, expandir suas redes, causar certa impressão.

Mas 20 anos atrás, quando alguém queria ler um bom texto, não procurava na internet por pesquisadores que expandem suas redes, mas sim por pesquisadores que publicam bons textos (que o Google Acadêmico me desminta, se eu estiver errado).

Eis a inversão: buscávamos conteúdos para aprimorar os horizontes do corpo; hoje o corpo é que parece horizonte para questões não mais de conteúdo, mas de visibilidade, de disponibilidade, de "estar ali" e "fazer de acordo", de bancar que se tem algum conteúdo, quando o conteúdo já não vale mais tanto assim.

Então, de algum modo, parece hoje necessário não mais se conectar à rede para ser alguém, mas se desconectar dela. Como se precisássemos reconquistar o corpo, a realidade, a vida.

Pois logo ali há uma nova notificação para nos transportar em direção a outros compromissos, deslocar o corpo do aqui e agora, mergulhar nessa antessala da qual parece que nunca mais conseguimos sair.

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A Lava Jato da Educação e os moinhos de vento "comunistas"


A última semana rendeu três notícias, cuja reunião pode criar longas consequências ao Brasil: a militarização de escolas municipais em Brasília, a criação de um gabinete militar coextensivo à reitoria da Universidade Federal Fluminense (depois revogada), e a sinalização de uma "lava jato da educação", pelos ministérios da Justiça, da Educação e Cultura e pela direção da Polícia Federal.

A criação da "lava jato" gerou algumas notícias em tom de cortina de fumaça. Alguns disseram que as ações da Kroton e da Estácio caíram 5% após a notícia. Outros, que o clima entre o MEC e a Associação das Mantenedoras do ensino privado (ABMES) ficou tenso. 

Apenas esqueceram de dizer que a vice-presidente da ANUP, entidade ligada à ABMES, é Elisabeth Guedes, irmã de Paulo Guedes, grande beneficiário do ensino privado no Brasil. 

Mas essa idéia de uma Lava jato da educação, unida à militarização, carrega questões muito mais sombrias, tendo visto que um dos primeiros alvos da "operação" são as universidades federais. 

Todo mundo sabe que a administração pública brasileira é uma imensa caixa-preta repleta de corrupção. Quem foi deputado durante 30 anos deve saber disso mais do que ninguém. E não ocorre diferente na educação. Uma devassa geral das contas, portanto, certamente revelará grandes irregularidades. E a bandeira de uma "lava jato" tem a credibilidade e o apoio de muita gente (embora falas de Sergio Moro, sobre Caixa-2 não ser crime como a corrupção - apesar de ter dito o contrário: que Caixa-2 é "pior do que corrupção" -, talvez comecem a abalar tal confiança).

Mas o propósito de uma lava jato em educação não deveria deixar o brasileiro esquecer de outra coisa, tão séria quanto: no plano de governo de Bolsonaro, e nas falas do atual ministro, a educação pública, especialmente a das universidades, é definida como uma espécie de "inimigo". As universidades são ali pintadas como antros de doutrinação influenciados pela obra de Paulo Freire. As entidades de educação privada, como a ABMES e a ANUP, fazem coro explícito a isso.

Como se sabe, isso é uma idéia totalmente maluca e não se sustenta, começando pelo fato de que 90% de nossa pesquisa vem das universidades públicas. Então os ataques não deram, até agora, muito certo. A idéia da doutrinação e do "paulofreireanismo" generalizados é simplesmente ridícula. Além disso, desqualificações da universidade, tais como a feita pelo ministro Velez de dizer que as universidades são "elitistas" e devem ser "para poucos", também não deram certo.

Inclusive, o ministro do MEC já foi bastante criticado por não sinalizar, até agora, qualquer questão para a educação que não fosse ideológica. É como se a existência de tais políticos apenas fosse legítima se existisse o inimigo pintado por eles. São como moinhos de vento: vai que cola dizer que são monstros. Mas assuntos de verdade, como as políticas sobre a educação, foram sequer tocados até agora.

Para cobrir tal vazio, portanto, não há nada melhor do que a criação de um inimigo. E uma Lava Jato para a educação tem sérios riscos de colar na cabeça do povo. Isso porque, conforme dito acima, é muito provável que os investigadores encontrem, sim, ilegalidades.

Muito ocorrerá como na tragédia do ex-reitor da UFSC, Cancelier. Muita gente boa será indevidamente exposta. Sob um selo de legalidade sem restrições e garantido por cobertura de jornal, a justiça brasileira poderá cometer desmedidas sob pretenso apoio popular.

Mas o que representa mais risco, nisso tudo, é a realização do plano de governo referido acima, de quem não sabe governar e está ansioso para encontrar inimigos que justifiquem sua existência. Explico: há o risco de que, encontrando aqui e ali irregularidades em alguma universidade, o governo julgue ter alguma justificativa para sua existência vazia de projetos. E mais ainda: é possível que a população acredite na lorota de que as pessoas da universidade são necessariamente inimigas, comunistas e corruptas.

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Governo em pés-de-chinelo


Talvez a notícia mais emblemática do governo Bolsonaro, e que imprimirá todos os próximos 4 anos, diga respeito ao fato dele ter usado chinelão e roupa maltrapilha durante o encaminhamento do projeto de reforma da previdência, na última semana. 

Explico: as roupas, os trejeitos, os chinelos do presidente causaram maior percepção, comentários, frisson ou bafafá do que a própria notícia vinculada quando ele estava assim. 

Isso dá um recado muito claro: as pessoas não estão nem aí para a reforma da previdência. Para além dos jornais, não há qualquer discussão pública. Não se fala disso nos pontos de ônibus, nos táxis, nos jantares de família. Não há memes sobre a Reforma no Facebook ou no WhatsApp. Revolta ou apoio algum. é um simples zero. 

Tudo se passa como se uma medida drástica como essa, de longuíssimas consequências, não existisse, não oferecesse qualquer motivo para o brasileiro pensar ou se preocupar.

Não obstante, isso diz muito sobre o que somos ou no que estamos nos tornando. 

Em primeiro lugar, o que se tornou a "discussão pública" no Brasil nem de longe tem aparência de discussão pública. Afinal, o próprio assunto público dá lugar a nuances de discussão privada. Por exemplo, os ditos da ministra Damares sobre os meninos usarem azul e as meninas rosa, ou a camisa falsificada do Palmeiras do presidente, ou mesmo seus chinelos rider, ganharam maior "ibope" do que qualquer outro assunto realmente público, e de grandes consequências, de seu próprio governo. 

Nem as notícias sobre Brumadinho talvez tiveram tanta repercussão, uma vez que as falas ou atos macarrônicos do governo sempre estão aí para promover um novo esquecimento. 

A ida frustrante de Bolsonaro a Davos cedeu lugar a notícias de humildade: veja como ele está cansado, como almoça no refeitório. Se não fala para a imprensa? Haverá uma entrevista bonachona à Record... 

E assim ocorreu durante um mês inteiro. Prognóstico: será assim nos próximos quatro anos. O brasileiro verá sua vida material esfacelar-se, seus direitos irem embora e o mercado de trabalho transformar-se num escambo miliciano. Mas enfim, sempre haverá um novo meme para comentar.

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De Maduro ao Brasil


O apoio do presidente Bolsonaro à deposição de Maduro, na Venezuela, tem uma função pouco percebida, não na política venezuelana, mas na brasileira.

Há pouco o PT, encabeçado por Gleisi Hoffmann, cometeu uma ação desastrada (senão desastrosa), ao estar presente na controversa posse de Maduro, reeleito em 2018. Fazendo isso, para a percepção do brasileiro comum o PT se alinha com o que parece uma crise clara e um governo duvidoso, uma vez que as eleições na Venezuela não foram absolutamente normais e o clima político brasileiro é incrivelmente polarizado. Com a sinalização de Gleisi, o PT se identifica com diversos estereótipos brasileiros sobre a esquerda em geral e o PT em particular: seriam adeptos de ditaduras de esquerda, repressão e corrupção estatal.

E isso acarreta em consequências bastante concretas. Porque não possui plano de governo senão o da acusação de um "inimigo" que precisa existir para justificar a própria existência, Bolsonaro agora investe numa política externa ligada não apenas à reprovação de Maduro, mas à sua deposição. Para Bolsonaro, não é suficiente reprovar o regime venezuelano, mas intervir em sua legitimidade e, pior, seu futuro.

Somada à atitude do PT, é como se isso desse a Bolsonaro uma espécie de argumento: é preciso perseguir ou depor não apenas o "inimigo" externo, mas especialmente os internos. Afinal, se o PT é uma espécie de irmão siamês da política de Maduro, não se deve depor apenas Maduro, mas também tudo o que representa o PT em particular e a esquerda em geral.


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Natal


Em meio aos pensamentos sobre esse blog solitário (quem faz um blog em 2018?), estava organizando as postagens, e nem percebi que havia colocado uma postagem totalmente impessoal para o Natal.

Não perceber que se está perto do Natal é um sinal dos tempos. Muito ruim, por sinal.

Não importa muito no que você acredita. Natal é natal. Se você não acredita na substância cristã do natal, ao menos deveria acreditar que as pessoas acreditam em muitas coisas.

Sim, é certo que há quem acredite que para elas Jesus sobe numa goiabeira diante dos olhos, crença cujo ridículo só não ultrapasse as crenças pré-científicas de que andar armado garante a segurança ou de que a Terra é plana.

Mas refiro-me a outro tipo de crença: ao fato de que já tivemos inúmeras cosmologias, cristãs ou não-cristãs. Inclusive, o próprio cristianismo nunca teve a mesma cosmologia. O Mundo não é o mesmo e nunca o foi, mesmo para o cristão mais convicto (Lemaître, Descartes, São Tomás e Santo Agostinho que me desmintam). E que bom que é assim.

Por isso, o mundo seria mais bonito se pudesse contemplar tantos outros Mundos. É meio errado, assim, defender que o feriado cristão "não vale" ou deveria ser deposto. É como se estivéssemos em direção de um mundo único, cinza, unicamente voltado aos turnos do trabalhho.

Muito mais bonito seria defender que outros feriados, de tantas outras convicções, pudessem multiplicar.

Por isso, desejo a você, do mais fundo do meu coração, um Mundo maior e um  Feliz Natal.

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Bolsonaro: economia de ministérios = questões fora de vista

Onix Lorenzoni divulgou hoje (embora nada se possa confiar nesse governo) que os ministérios seriam reduzidos de 29 para 22.

O que me parece interessante é que esse dado não é o menos importante (FHC já havia dito certeiramente que “não interessa o que Bolsonaro diz, mas o que vai fazer. Esperemos a posse“), e sim o que ali não está contido.

Meio Ambiente e Direitos Humanos permanecem sem nomes, visto que Bolsonaro tornou esses ministérios "polêmicos" (como se não fosse simples bom senso mantê-los).

Mas há mais coisas aí sem nome. Uma delas é a quase ausente reação dos diversos setores da educação contra o nome do ministro escolhido. Houve algum burburinho, mas nada comparável ao que ocorreu quando Bolsonaro ameaçou fundir o meio ambiente com a agricultura.

A educação, pelo visto, vai bem (mesmo que bem desunida).

O mesmo ocorre com o Ministério do Trabalho. Será simplesmente desmembrado. E o setor responsável pelo trabalho escravo não tem destinação precisa.

O trabalho escravo continua vivinho no Brasil, em qualquer lugar e cenário. E o combate contra ele já sofria cortes orçamentários.

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Lá nas terras de Moçambique, Mia Couto diz:
“A pressa em mostrar que não se é pobre é, em si mesma, um atestado de pobreza. A nossa pobreza não pode ser motivo de ocultação. Quem deve sentir vergonha não é o pobre mas quem cria pobreza.
A frase explica muita coisa, não sobre Moçambique mas sobre o Brasil. O irônico é que apenas seja proferida lá, e não aqui. Por aqui, parece que as pessoas acham que ostentar a riqueza que não se tem é algo normal. Uma sociedade inteira com sucata nos pés e ouro na cabeça.

Talvez os moçambicanos ainda tenham chance.

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Bolsonaro e a doutrinação do ENEM

Bolsonaro disse ontem, a respeito do ENEM:
Esta prova do Enem – vão falar que eu estou implicando, pelo amor de Deus –, este tema da linguagem particular daquelas pessoas, o que temos a ver com isso, meu Deus do céu? Quando a gente vai ver a tradução daquelas palavras, um absurdo, um absurdo! Vai obrigar a molecada a se interessar por isso agora para o Enem do ano que vem?
, e depois arrematou:
Podem ter certeza e ficar tranquilos. Não vai ter questão desta forma ano que vem, porque nós vamos tomar conhecimento da prova antes. Não vai ter isso daí 
 Suas teses estão bem claras: segundo ele, há uma conspiração esquerdista no ENEM, com questões focadas em gênero para os jovens "se interessarem" em coisas do tipo.

Será isso mesmo? Vamos à questão do ENEM:
Conforme divulga o link, a resposta correta é a "C".

Agora vale prestar atenção e responder ao seguinte: estamos diante de uma questão sobre LGBT ou sobre língua portuguesa, envolvendo a definição de dialeto e uma pequena dose de interpretação de texto

Os bolsonaristas poderiam, nisso, responder: mas por que então escolher um dialeto gay? Não haveriam outros dialetos, igualmente minoritários?

A resposta óbvia é: se há tantos dialetos e minoritários, que diferença faz numa questão de língua portuguesa? Há tanta utilidade em escolher um quanto outro.

Pegou mal para Bolsonaro... Em primeiro lugar, porque ele simplesmente não leu a questão. Em segundo, sendo uma questão sobre dialetos, por que alguém proibiria um dialeto em detrimento dos outros?

O critério da prova não deveria ser neutro? O estudo da língua, como poderia dizer Bolsonaro, não deveria ser "neutro"? Afinal, é uma prova de português!

A respeito disso, Eduardo Bolsonaro comentou em seu twitter:
Prezados estudantes, quando vocês forem ser entrevistados para um emprego ou estiverem abrindo um empreendimento aviso: sexualidade, feminismo, linguagem travesti, machismo e etc terão pouca ou nenhuma importância. Portanto, estude também o que lhe deixará apto para a vida.
Olhem a tese: é preciso conhecimentos para se estar "apto à vida", e não essa coisa de aprender coisas de sexualidade. Em certo sentido, quem discordaria dele? Nem o criador da prova do ENEM! Ele poderia inclusive complementar que é essencial para a vida a interpretação de texto.

Tem faltado professor aí... pois, além de interpretação de texto, faltou no texto de Bolsonaro também outras coisas, como concordância, eliminação de verbos excessivos e gerundismos. 

***
De todo modo, ocorre aí algo muito grave. 

Entendemos que os Bolsonaro estão errados e a "doutrinação do ENEM" é uma mentira. Mas algo aí não passou como mentira, e é o próprio episódio. 

Hoje foi o episódio do ENEM, ontem o das "mamadeiras de pinto", anteontem o do manual de doutrinação do MEC...

Todos os episódios se comprovam como mentirosos. Mas algo permanece: a pauta. Já é um ensinamento antigo que uma mentira repetida muitas vezes torna-se verdade. Não à toa, os professores estão sofrendo tantos constrangimentos.

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Haddad, Bolsonaro, JN e retórica.

Hoje o Jornal Nacional realizou entrevista com Haddad, após a indicação de Lula e a pesquisa do Datafolha que mostrou Bolsonaro - "esfaqueado" - com 26% e Haddad com 13%, empatado em segundo com Ciro Gomes (PDT).

De algum modo, o JN empregou uma retórica ainda não vista n'outros anos na entrevista com candidatos: a do combate. Na ocasião de Bolsonaro, ele chegou a comparar a mesa de debate com um módulo de artilharia.

No que diz respeito a Haddad, ele foi "metralhado" (se utilizarmos outra palavra de Bolsonaro sobre petistas) por Bonner e Vasconcellos, ou ao menos essa foi a impressão retórica da entrevista para o cidadão em geral.

Tais aspectos mostram bem a época na qual vivemos. O formato inteiro - de "artilharia" - favoreceu Bolsonaro, candidato de retórica fraca e palavras secas, que ainda não superou as fases operatório-concretas do desenvolvimento infantil. Da entrevista dele para cá, o candidato teve inclusive reuniões com os diretores da Globo (dois dias antes da facada), o que mostra que o grupo levou sua candidatura mais a sério.

Quanto a Haddad, o tom professoral não sobreviveu aos ataques de Bonner e Vasconcellos. Independente do que Haddad tenha feito ou não como político, no nível da argumentação seu posicionamento de professor não é o formato ideal da entrevista. Pois Haddad se concentrava primeiro em contextualizar a pergunta de Bonner, para depois respondê-la. Não conseguiu falar e foi bombardeado com outras perguntas e evidências (verdadeiras ou não).

Veja bem, caro leitor: não defendi Haddad em momento algum. Mas é curioso: uma época "da lacração" exige posicionamentos "lacradores". Não à toa o "mito" está em primeiro nas pesquisas. Não precisa dizer uma só palavra ou articular argumento, num evento que ainda ousam chamar de político.

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Um museu não queima à toa


No dia 2 de setembro, data em que Maria Leopoldina assinou a independência do Brasil, o Museu Nacional - local da assinatura - ardeu em chamas. Nada mais simbólico.

Pouco sobrou. Conforme comentou Eduardo Viveiros de Castro, um dos maiores antropólogos da atualidade, o que ardeu foi o "ground zero" do pensamento brasileiro. O ponto inicial do que poderia nos dar alguma identidade nacional, e não apenas a face de um país que não sabe para onde vai.

Nas redes sociais, vejo as pessoas se emocionarem. Mas logo continuam as correntes, os memes, inclusive em prol de candidatos sem qualquer proposta para a cultura. Ou mesmo em apoio a um candidato fascista.

É o mesmo candidato fascista que disse várias vezes que vai "fuzilar" o pessoal da cultura e anexar o Ministério da Cultura como modesta secretaria dentro do Ministério da Educação. Quem seria o encarregado? Alexandre Frota (quando a coisa aperta, vem alguém para dizer: "foi 'brincadeira'"). Mas o engraçado é que as pessoas são capazes de chorar pelo Museu Nacional e não ligar essa informação ao fato que o próprio candidato de seu voto rebaixará o ministério da Cultura.

A entrevista com Eduardo Viveiros de Castro, antropólogo do MN, emociona e revolta. É uma triste e pessimista análise sobre o que o Brasil está se tornando.

O brasileiro é ruim de ouvido, não sabe ouvir críticas. Crítica interna é coisa de chato e caxias. Quanto à crítica externa, ela só vale se for em sinal de reconhecimento. Se for negativa, os auto-enganos e justificações são bastante automáticos.

Então as declarações do arqueólogo egípcio Zahi Hawass passarão por nós como se não existissem (isso para quem as ler). Ele disse que, se não somos capazes de cuidar das raridades egípcias que perduraram outros 3500 anos, deveríamos então devolvê-las, ao invés de deixá-las arder. Afinal, se o descuidado é um patrimônio brasileiro, isso não quer dizer que outros países gostem do mesmo.

Um pouco desorientado, copio o link da entrevista com Viveiros de Castro e faço circular nas redes sociais. Mas logo alguém me interrompe sobre essas coisas de "ficar divulgando "links do PT". Diz ele: isso não passa de propaganda ideológica, coisa de esquerda, de intelectuais, de "gente da cultura" etc.. "Querem nos enganar, agora sobre o Museu".

Mas não havia ali nada referente ao PT. "PT" se referia ao endereço do site que entrevistou Viveiros de Castro. No caso, era o jornal "Publico", de Portugal, cujo endereço é publico.pt .

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Noam Chomsky, as fake news e o Brasil


O quanto essa entrevista com Noam Chomsky nos cabe.

Sobre a descrença nos "fatos" e a criação de um mundo de fakenews, ele diz:
Já faz 40 anos que o neoliberalismo, liderado por Ronald Reagan e Margaret Thatcher, assaltou o mundo. E isso teve um efeito. A concentração aguda de riqueza em mãos privadas veio acompanhada de uma perda do poder da população geral. As pessoas se sentem menos representadas e levam uma vida precária, com trabalhos cada vez piores. O resultado é uma mistura de aborrecimento, medo e escapismo. Já não se confia nem nos próprios fatos. Há quem chama isso de populismo, mas na verdade é descrédito das instituições.
 Sobre como a imprensa concede pauta para atitudes não-democráticas:
Olhe a televisão e as primeiras páginas dos jornais. Não há nada mais que Trump, Trump, Trump. A mídia caiu na estratégia traçada por Trump. Todo dia ele lhes dá um estímulo ou uma mentira para se manter sob os holofotes e ser o centro da atenção. Enquanto isso, o flanco selvagem dos republicanos vai desenvolvendo sua política de extrema direita, cortando direitos dos trabalhadores e abandonando a luta contra a mudança climática, que é precisamente aquilo que pode acabar com todos nós.
O texto acima é particularmente interessante, devido a um fenômeno talvez pouco estudado, mas que a linguagem popular chama de "dar bandeira a maluco". Por controle de estímulos, como dizem os psicólogos behavioristas (isto é, pela criação sucessiva de contextos nos quais determinados eventos são apresentados e ocasionam determinados jogos - contingências - de comportamento), uma pauta anti-democrática ganha primeiro plano no seio da democracia. Ou, em outras palavras, um candidato é capaz de ganhar visibilidade não pelo que diz ou tem a contribuir, mas pelo fato de tornar-se frequentemente visível por outros critérios. Um pouco como na velha frase atribuída a Goebbels.

Isso ocorre no já clássico caso da oposição Lula x Bolsonaro: quando a esquerda, por vício de alarmismo e vitimismo, colocou os dois lado a lado, isso acabou capitalizando a figura de Bolsonaro que, de deputado irrelevante do baixo clero, tornou-se uma espécie de "opositor" das políticas do PT.

O resultado tornou-se bastante conhecido ao brasileiro: basta dizer "Lula" que alguém devolve sem pensar "Bolsonaro!"; e basta acusar Bolsonaro e você é diretamente visto como "lulista", mesmo que isso esteja longe da verdade.
P. Houve um deslizamento para a direita do espectro político?
R. Na elite do espectro político sim, ocorreu esse deslizamento, mas não na população em geral. Desde os anos oitenta se vive uma ruptura entre o que as pessoas desejam e as políticas públicas. É fácil ver isso no caso dos impostos. As pesquisas mostram que a maioria quer impostos mais altos para os ricos. Mas isso nunca se leva a cabo. Frente a isso se promoveu a ideia de que reduzir impostos traz vantagens para todos e que o Estado é o inimigo. Mas quem se beneficia da reduzir [verbas para] estradas,hospitais, água limpa e ar respirável? 

P. Então o neoliberalismo triunfou? 
R. O neoliberalismo existe, mas só para os pobres. O mercado livre é para eles, não para nós. Essa é a história do capitalismo. As grandes corporações empreenderam a luta de classes, são autênticos marxistas, mas com os valores invertidos. Os princípios do livre mercado são ótimos para ser aplicados aos pobres, mas os muito ricos são protegidos. As grandes indústrias de energia recebem subvenções de centenas de milhões de dólares, a economia de alta tecnologia se beneficia das pesquisas públicas de décadas anteriores, as entidades financeiras obtêm ajuda maciça depois de afundar… Todas elas vivem com um seguro: são consideradas muito grandes para cair e são resgatadas se têm problemas. No fim das contas, os impostos servem para subvencionar essas entidades e com elas, os ricos e poderosos. Mas além disso se diz à população que o Estado é o problema e se reduz seu campo de ação. E o que ocorre? Seu espaço é ocupado pelo poder privado, e a tirania das grandes corporações fica cada vez maior.
Lúcido, o velho Chomsky.

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A verdadeira riqueza

A beleza e a verdadeira riqueza são sempre assim, baratas e despreparadas. O paraíso poderia ser definido como o lugar que os homens evitam.
- Thoreau, Maçãs Silvestres e Cores de Outono.

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Fim da CLT e terceirização irrestrita: um dia histórico (para a história do esquecimento)

Hoje é um dia histórico. O STF aprovou a contratação terceirizada sem restrições, exatamente um dia após Temer anunciar aumento de 16% ao STF.

Um dono de restaurante poderá terceirizar todos os funcionários, inclusive os de atividades-fim. Um diretor de escola poderá terceirizar todos os professores. E assim por diante, o emprego brasileiro tornou-se um arranjo de frangalhos.

A tese é de modernização e liberalização, desburocratizando leis "rígidas" e maleabilizando as iniciativas individuais. Diz o ministro Barroso:
Estamos vivendo a revolução tecnológica. Milhões de pessoas se intercomunicam pela Internet. Vivemos sob uma nova ideologia, nova gramática. Não há setor da economia que não tenha sido afetado

A aparência de modernização não esconde a facilidade em provar como tudo isso favorecerá a degradação de nossa malha trabalhista, com vínculos precários, instáveis, frutos de negociatas e jogos de lobby e privilégios, baixando o valor geral dos salários e a qualidade dos serviços. Sem contar o mito de que o numero de empregos aumentará.

A aposta é dupla: primeiro, a idéia de que se cada um for entregue a si mesmo, haverá uma "competição" na qual a qualidade dos serviços aumenta e apenas o "mais forte" e "competente" tem sucesso; e a idéia de que a sociedade de fato se beneficiaria como um todo, sistemicamente, com isso.

Moral da história: liberdade individual e benefício coletivo.



Mas é como se esquecêssemos de quem somos. Não muito tempo atrás, o brasileiro era simplesmente entregue ao próprio corpo e ações, sem maiores leis ou idéia de país a ampará-lo. Sempre fomos uma sociedade de eiras e beiras.

Darcy Ribeiro dizia: aqui não passava de um "moinho de gastar gente". Nada mais longe do que qualquer idéia de liberdade individual.

Mas enfim, quando criada a CLT, Getúlio Vargas a anunciou em alto e bom tom. Houve grandes consequências populares e nos jornais. As leis vigoraram por décadas.

Hoje, sob transformação tão importante, a notícia passou quase despercebida. Não chegou a ser preocupação nas ruas. Ninguém se importou com isso.

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